Nas prateleiras aos montes os livros de autoajuda, ganha-pão que sustenta muitas editoras atualmente, me fazem pensar. O que está havendo? Tanta gente assim perdida procurando um alento? Já li alguns, curiosidade, diversão, angústia ... Mas apenas concluí que nenhum deles está à altura dos bem armados livros de literatura ou de filosofia ou mesmo de História. São esses os verdadeiros livros de autoajuda, que nos fazem refletir sobre a existência, a realidade e nosso papel dentro desse contexto. Aconteceu assim quando li Memórias Póstumas de Brás Cubas, A Metamorfose, o grande Grande Sertão: Veredas. Saí dessas leituras com o corpo cambaleante, pedindo água, pedindo papel e caneta, pedindo mesmo um penico para não fazer nas calças. Essa é a magia da leitura, o poder transformador do humano.
Bem, mas disse tudo isso para dizer de uma leitura que me tem me provocado alguma transformação, mais especificamente uma página do livro fez com que eu reavaliasse e percebesse todo um comportamento que tenho durante anos e nunca conseguira identificar. O que já ouvi ser chamado de excesso de preocupação com a opinião alheia e de autossabotagem, enfim parece ter uma cara mais definida, graças a uma leitura...
Para explicar vou transcrever um trecho do livro Quando Nietzsche chorou, de Irvin D. Yalom:
"Houve uma época em nossas vidas em que estávamos tão próximos que nada parecia obstruir nossa amizade e fraternidade e apenas uma pequena ponte nos separava. Quando você ia subir na ponte, eu lhe perguntei: "Você quer atravessar a ponte até mim?" Imediatamente, você deixou de querê-lo e quando repeti a pergunta, você ficou silente. Desde então, montanhas, rios torrenciais e o que quer que separe e aliene interpuseram-se entre nós e, mesmo que quiséssemos nos reunir, não conseguiríamos. Agora, ao pensar no pontilhão, você perde as palavras, e soluça e se maravilha."
A esse trecho seguiu-se o argumento de Freud para o comportamento arredio de Nietzsche a qualquer oferecimento de ajuda de Dr. Breur:
“(...) É uma historieta curiosa. Vamos analisá-la. Uma pessoa está prestes a atravessar a ponte, ou seja, a se aproximar da outra, quando a segunda pessoa a convida a fazer exatamente o que planejara. Com isso a primeira pessoa não consegue mais dar o passo, porque agora parece estar se submetendo à outra – o poder aparentemente prejudicando a proximidade.”
Bingo! De repente esses parágrafos me fizeram entender uma forma muito acentuada que tenho de me relacionar com o poder. Se alguém me diz para fazer algo que eu já planejava ou desejava fazer é como um golpe que me deixa profundamente irritada. Se eu vou fazer algo que me dê prazer como caminhar, por exemplo, e alguém me recomenda fazer exatamente isso, é como se fosse desferido um golpe contra minha cabeça. Nesse momento, me foi tirado o direito de decidir, de escolher, de tentar, sendo que se eu fizer a caminhada eu não estarei mais atendendo à minha necessidade, mas ao desejo do outro de se sentir melhor por controlar de alguma maneira a minha vida. E essa perda de controle e do poder de escolher me dá desespero.
E, por essa razão, chego a deixar de fazer qualquer coisa que eu queira só pelo fato de outra pessoa tê-lo exigido. Como com Nietzsche, atormenta-me a ideia de fazer com que o caridoso e bem intencionado amigo se fortaleça em cima da minha força. Que seja do outro a ideia que era antes minha. Então a recupero fazendo o contrário do que ele diz, reencontrando-me dentro de mim mesma e me dando o direito de realizar uma escolha, ainda que errada, que seja minha. Rompendo a ponte.
Humana.